Diálogo com uma pulga atrás da orelha
Um velho moleque:
Utopia?
Bem, ainda menino,
eu assistia à ficção científica,
sonhava com heróis de aço e silício,
brincava com cada minuto.
A gente criaria belezas,
robôs seriam úteis.
Uma pulga ranzinza:
Cala a boca, rapaz!
Acorde para a realidade:
O robô roubará teu emprego,
roubará teu emprego,
teu emprego,
roubará!
O moleque:
Emprego?
Já temos os produtos
maquinados nas máquinas.
A gente fabrica
a felicidade
comum.
A pulga:
Suor na camisa, malandro!
Bastante suor, guri!
Suor, suor!
O moleque:
Suor faz feliz?
Suemos na praia,
pé e sorriso na areia.
Aparelhos fazem produtos,
mais fácil partilharmos os frutos
A pulga:
Facilidade é preguiça!
Invente novas carências!
Empreenda coisa qualquer!
Inove, não durma, não durma!
O moleque:
A fábrica já está pronta.
A loja já está aberta.
Faltarão cartões.
Reduzam a jornada.
Dobrarão-se as vagas.
As prateleiras borbulharão!
A pulga:
Inveje as máquinas, seu tonto!
Trabalham melhor que você.
Sem riso nem choramingo.
Dispensam a ergonomia,
repouso no sétimo dia,
férias, saúde mental.
A verdade é óbvia:
a vida é ineficaz.
Ruído, ruído,
ruído. . .