Esquecimento global
Bah... e a verdade,
como é que ela está?
Faz tempo que não me falam dela. . .
Que saudade que me bateu agora!
Por onde ela anda?
Está bem de saúde?
Coisa triste quando passa a época da gente...
Ainda me lembro da verdade charmosa
correndo altiva em margens reais
quando o rio era rio e não era lago.
A natureza podia ter nome concreto
e o concreto não plastificava a orla.
Os fatos permeavam um chão paciente,
alimentando sinceros lençóis.
Naqueles tempos,
a mentira era fraquinha,
morria na virada da esquina,
não se atrevia com a natureza.
Mas a tecnologia extrativista
comeu fermento e levou uma sova.
Acelerou ilusões.
Fez a verdade empoçar
no meio da rua e da roça,
nas margens imobiliárias do lucro,
nas matas tornadas desertos de soja,
no coração da província de São Pedro,
em mentiras compartilhadas demais.
A verdade ficou démodé sem aviso
numa pauta ancestral
do ministério da propaganda,
no negacionismo de um Brasil paralelo.
No inverso da sede,
é a água que nos toma,
no inverso da memória,
o tempo perde a pedagogia.
Esquecemos 1941
e as lições dos anos 30.
A mentira nos afogou sem pena
e serviu-nos a seca em um caneco de chope.
E a notícia sem fonte,
essa concentrou-se nos campos
com gás, desmatamento e fascismo.
Meu Jesus Cristo,
repotalize a verdade,
pelo amor dos ateus!