Meio manual do homem médio
Um homem de média estatura,
que gosta de ser esquecido,
respira poesia escondido.
Ele assiste,
pelo binóculo da periferia,
aos carros que se espremem
na cegonha do consumo durável,
no funil do entroncamento,
na entrada do shopping center.
Ele veio sei lá de onde,
andou por aí não faz tempo,
ouviu falar do sucesso,
deixou uma banana de brinde.
Ele envelhece como tartaruga,
abre os braços no mato,
puxa o ar com vontade,
esbanja oxigênio.
Depois,
desvia do luxo e do lixo,
navega na multidão,
camuflado na selva de pedra,
no zafu,
cultiva sua agrofloresta
e espalha rabiscos curiosos
com versos aqui e ali.
O cidadão pouco mais que miúdo
aprendeu com os bichos do mato
e as cachorras felizes da vida
que a paz da natureza reside
no bem querer às mulheres,
na falta de pedigree,
na ausência de seguidores,
no espaço clandestino
das coisas fora de vista.
Ser meio invisível é rebeldia,
mentir redunda bastante,
não há posto a ser alcançado,
não há aplauso bonito,
nem niilismo existe direito,
algum dinheiro que era para vir
chegou no início do mês.
Caminhar sem chicote faz bem -
a saúde agradece por tudo!