Num útero vegetal
Plantas são boas ouvintes,
não interrompem ninguém.
Eu,
porém,
já ouvi uma resposta
com hálito de clorofila.
Pensei ser um herbívoro,
um ruminante,
um vento de chuva,
sei lá,
mas o espécime era mais exótico.
Meio gente,
meio planta,
experiência do agronegócio
cujo fruto brota ligeiro.
A planta argumentava
que gente parece planta:
ambas são cultivadas,
ambas são podadas,
ambas são commodities.
O agronegócio é sabido:
agora planta gente,
depois rega deputado,
depois colhe benefícios
igual se faz com a soja.
Commodities in natura
ostentam alto padrão,
gostam de música padronizada,
nascem pré-exportadas,
geneticamente cozidas.
O pé-de-soja me garantiu:
essa safra será recorde,
todo o ano tem Guiness
e a colheita viaja o mundo:
mais ração suína na China.
O pé-com-útero me avaliou:
envelheci de nascença.
Muito tempo refletir o sol,
eternamente absorvê-lo,
não dá em boa ração.
O pé-de-gente,
então,
foi dormir:
colheita exige energia.
Quanto a mim,
sem tempo para réplica,
não repeti o meu erro:
jogar pérolas a plantas!