O avesso da coisa toda

a red car on a yellow building
a red car on a yellow building

Uma fábrica se instalou aqui perto,
faz alguma coisa não muito útil.
Minto -
alguma coisa um pouco supérflua.
Parece que é eletrônica.
Brilha, pia e se mexe no canto da casa.
A gente toda ficou bem feliz:
haverá mais emprego.
Alguém venderá oito horas por dia, quarenta e quatro por semana -
cem, duzentas, talvez mil pessoas.

No fim:
Oito vinte e quatro avos da vida diária e humana vale um pedaço de coisas de que até há pouco ninguém sentia a mínima falta.
Produtos são pretextos para que alguém venda suas horas e mate a fome.
Comprimidos farão parte da dieta do trabalhador, mas não da cesta básica.
A mão que labora sofrerá de amnésia quando a mercadoria entrar na embalagem.
A mãe que labora não conhecerá mais que seu lugar na linha de produção.
O pai operário terá uma viseira de cavalo na sua EPI.
Embalagens são feitas para se esvaziarem e encherem os mares de plástico.
A gente jogará coisas num fora que não existe.
A mercadoria ficará obsoleta na data marcada.