Por quem choram as nuvens?
Pingando por anos,
quem lacrimeja é sempre ele,
o Zé do Povo,
gente fora de vista,
gente pouco prevista,
habitante de periferias,
bordas urbanas exiladas de tudo
cuja tristeza não sai na estatística.
Pingando para cima,
cabeça acima,
do Zé do Povo,
um rio de lágrimas pôs-se a voar
pintando de sombras o céu do antropoceno.
A seca reclamou de sede,
a água bebeu a estiagem,
as ondas de calor submergiram toda a saúde.
Pingando para sempre,
a chuva ácida
cegou o choro do Zé do Povo.
As médias não foram lidas,
todas as curvas foram negadas,
o meio ambiente escapou da moda,
a prevenção era um desvio do padrão.
O Zé do Povo iludiu-se com plástico.
Pingando torrencialmente,
na pandemia das águas,
gripou-se o Zé do Povo.
Numa crise de espirros,
fez transbordar o choroso Guaíba,
engolindo a orla bonita.
A zona boêmia dormiu encharcada,
a história do centro perdeu sua graça,
a capital do Rio Grande virou Porto Triste.