Tristeza oceânica
Aconselhei uma mulher a não me amar:
meu anjo da guarda é pedestre,
minhas emoções são de vidro,
meus hábitos nasceram grisalhos.
Nas férias,
não saio de casa,
devoro as letras.
O amor podia ser uma boa aposta. . .
Ela me olhava com açúcar nos olhos,
com a força de Pachamama,
tecia gentilezas com ares de borboleta.
Mas
meu espelho perdeu no par ou ímpar,
meu cavalo optou pelo jóquei ao lado,
desmerecer é um fato,
é um fardo.
De mala crônica,
já cheguei amassado no berço,
então,
pedi a uma mulher que não me amasse!
Nasci gêmeo de paranóias,
minhas pérolas têm nome de remédio,
são remédios
e são para a cabeça.
Na monotonia e no nada é que nado feliz.
Porém, o amor. . .
ah, que delícia!
Que aconchego de almas algodoadas,
que azul caribenho vivendo. . .
não merece parasitagem.
Assim,
protegi a arquitetura de uma mulher,
apelei a seu bom gosto:
meu habitat parece insalubre,
o reboco caiu no outono,
deixei tudo assim por preguiça,
virei para o lado na cama.
A apelação cancelou o oxigênio,
seu rosto desistiu do sorriso,
a tarde perdeu a tardinha,
um sopro chacoalhou minha casa,
fiquei sem teto nem chão,
meu coração se soltou pelo meio da rua.